Por Joedson Telles
“Por volta das três horas da tarde, Jesus bradou em alta voz: ‘Eloí, Eloí, lamá sabactâni?’ que significa: ‘Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste? ‘” – Mateus 27:46 (NVI).
O sofrimento incalculável – e não um sofrimento – abraçou o nosso Senhor, na cruz; físico, psicológico, espiritual… “Foi desprezado e rejeitado pelos homens, um homem de tristeza e familiarizado com o sofrimento. Como alguém de quem os homens escondem o rosto, foi desprezado, e nós não o tínhamos em estima”, antecipou o profeta Isaías (53:3).
O teólogo calvinista John Dwight Pentecost (1915-2014) registrou que esse questionamento de Jesus marca o clímax do seu sofrimento por causa de um mundo perdido. “Aqui ele bebeu até a última gota a taça da tristeza, agonia e dor por nós.”
Antes mesmo de ser preso, Jesus orou ao Pai pedindo o livramento da morte. Contudo, não encerrou a oração sem dizer que a vontade de Deus, e não a sua, fosse feita. (Lucas 22: 42). Uma lição singular de obediência e confiança no plano divino, independente das circunstâncias.
Jesus conhecia o plano de redenção antes da fundação do mundo (Efésios 1: 4-6), por ser ele o Deus filho e compartilhar tudo com o Pai (João 5: 19). Tinha discernimento que seria doloroso. Entretanto, ele não se furtou à missão por amor aos seus eleitos. Se entregou voluntariamente. Mas, ainda assim, indagou ao Pai o porquê do abandono. E se Jesus perguntou não seria um ser humano pecador, como eu e você, que saberia responder. A Bíblia silencia. É teologia profunda.
Citando os verbos do reformador Martinho Lutero, o teólogo americano Philip Ryken questiona: “Deus abandonado por Deus, quem pode compreender isso”?
Entretanto, não desprezemos o fato de, na cruz, Jesus ter carregado o pecado do seu povo e isso entrar em rota de colisão com a santidade de Deus. “… e o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós” (Isaías 53:6).
Não seria Deus a própria perfeição se abraçasse o pecado, ainda que a rebeldia não fosse própria de Jesus, mas de nós que cremos nele e na sua missão de salvador. Além disso, se por um lado Deus abandonou momentaneamente, por outro acolheu, ressuscitando em glória eterna.
Devemos refletir, por fim, sobre a pedagogia que o episódio lança sobre a humanidade. Se Deus agiu assim em se tratando dos pecados alheios carregados pelo Amado, “… se foi da vontade do Senhor esmagá-lo e fazê-lo sofrer” (Isaías 53:10), imagine a ira de Deus apontada para pecadores que não valorizam o sacrifício expiatório de Cristo Jesus, e vivem de forma ímpia?







