“José Carlos Araújo. Voltei”. Puxo da memória a forma ímpar que o Garotinho reassumia o microfone da Rádio Globo do Rio de Janeiro, após os comerciais, nas inesquecíveis transmissões esportivas, que cultivava como hábito de infância. Domingo à tarde ou às quartas ou às quintas à noite eram os encontros imperdíveis. Sem sequer cogitar rádio web, era na “latinha” mesmo. Ou escutando pelo rádio – para quem não teve o prazer de aprender com o próprio Garotinho a forma carinhosa de se referir ao aparelho.
Lembro que ficava impressionado não apenas pelo timaço do Flamengo – com Zico, Júnior e Leandro, entre outros craques – , mas também com o talento do Garotinho para ganhar a vida com o ofício. Muita emoção nas transmissões. Vez por outra, porém, os ouvintes eram surpreendidos com o Garotinho saindo da esfera do esporte para anunciar o “Amarelinho em ação” – uma viatura da Rádio Globo que circulava as ruas do Rio à caça de notícias.
Difícil era o dia em que o repórter da externa não noticiava pelo menos um homicídio, uma assalto ou outro crime qualquer. Não tinha 0 x 0. Às vezes a violência concorria com a peleja. E o garotinho era obrigado a dividir o tempo de narração com o repórter. Um gol, um corpo. Uma jogada bonita, um assalto.
Na tarde de ontem, terça-feira 16, enquanto aguardava o início da transmissão da sessão da Câmara Municipal de Aracaju, pela Rádio Liberdade 930 AM, concentrado na política, como fazia com o futebol, fui surpreendido quando o bom jornalista e radialista Gabriel Damásio anunciou um assalto ocorrido no Banese. Salvo engano, o quarto crime desta natureza praticado em Aracaju em menos de duas semanas.
Assaltos a banco, justiceiro ou grupo de extermínio aterrorizando Poço Verde, assaltos contra escolas, os incontáveis homicídios – sobretudo em Aracaju e Itabaiana – e outras formas de a violência pairar em Sergipe, colocando a polícia em xeque, lembram os flaches do “Amarelinho em ação”.
Dizem que quando o problema é na casa do vizinho tendemos a minimizá-lo. E é verdade. A nossa cultura, salvo exceções, inclina para o egoísmo involuntário. Não que se tenha prazer na desgraça alheia. Tampouco não usemos da empatia. Mas, via de regra, ao tomarmos conhecimento de crimes que atingem estranhos, por mais que fiquemos chocados, tendemos a esquecer em pouco tempo. Às vezes em segundos – como acontecia nas transmissões interrompidas. Após a notícia da tragédia à distância, a emoção da partida reinava na voz marcante de José Carlos Araújo. Às vezes, o gol até interrompia o repórter.
Com a notícia dada por Gabriel, não. A sensação de insegurança que escolta os mais lúcidos aumentou. Permitir-me um monólogo, na hora. Tentei entender como um estado pequeno como o nosso, que já foi referência em combate à criminalidade, chegou ao fundo do poço. Por que não temos segurança? Ironicamente, padecemos justamente num governo que, de longe, é o que melhor remunera as polícias? Que coisa obtusa. Não deveria ser o contrário – a paz reinar?
É certo que pessoas que entendem bem mais de segurança, como o deputado Capitão Samuel, já diagnosticaram que a falta de efetivo nas Polícias Civil e Militar explica o problema. Todavia, o mesmo Samuel, que vive a se esgoelar cobrando o tal concurso que nunca sai do papel, já delatou: na capital há policial, mas não há planejamento.
Acredito que Samuel tem razão. No tocante ao concurso público, aliás, o próprio governador já admitiu a necessidade, mas explicou que o Estado não teve ainda como fazer. Mas acredito também que, assim como certas táticas equivocadas de treinadores resultavam em gols adversários narrados pelo Garotinho, o problema da segurança pública em Sergipe também está na questão tática. Ou melhor: na flagrante falta de um projeto eficiente.
Assim como o Garotinho usava a expressão “mais perdido que cego em tiroteio”, para definir um time de futebol que levava um gol e despencava assustadoramente de produção dentro de campo, perdendo a partida, a julgar pelo que se assiste em Sergipe, a Secretaria de Estado de Segurança Pública, vive o mesmo drama – cada crime é um gol em sua vazada defesa. Placar mais elástico parece impossível. Os bandidos goleiam. E dão olé. Deixariam o Garotinho rouco facilmente de tanto gritar gol. E Sergipe segue “firme” rumo ao título de campeão em violência, obrigando a torcida da paz a deixar o estádio com mais um campeonato perdido.
Assim como os clubes do Rio, exceto o Flamengo, tiveram que experimentar o gosto amargo da segunda divisão, para trocar seus técnicos, se reorganizar e, só assim, retornar à elite do futebol, penso que o atual projeto, se é que existe, faliu há muito tempo. E cabe ao presidente do clube, quer dizer ao governador do Estado, tentar evitar o rebaixamento mudando o técnico. Se é que com tantos crimes o time não já está na quarta divisão. Aos desinformados, não existe a quinta.
Preocupa saber que, a julgar pelo esboço que se apresenta, muitas transmissões ainda continuarão sendo interrompidas por notícias de criminalidade em Sergipe. E diferente de um time que perde um campeonato, mas pode muito bem se recuperar no ano seguinte, como o Fluminense que saiu da terceira divisão para Libertadores, uma vida ceifada não volta jamais. A dor é para sempre. E outras ações da criminalidade deixam marcas idênticas.
P.S. O internauta que não conhece o garotinho está intimado a digitar no Google a frase “José Carlos Araújo gol de Pet” e atestar os talentos – do narrador e jogador.
Modificado em 30/04/2013 19:05
Comentários (1)
Impressiona a quantidade de roubos a banco nos ultimos 12 mezes. Pratica esta que estava praticamente extinta em anos anteriores!