Dados do Comsefaz, com base em informações do Banco Central, mostram que R$ 350,97 bilhões foram movimentados em transferências via Pix, principal método de pagamento relacionado às apostas em 2025. No mesmo período, a perda líquida das famílias com as bets alcançou R$ 62,5 bilhões. Considerando a participação de Sergipe na população brasileira, esse volume representa uma dimensão potencial de aproximadamente R$ 3,8 bilhões no Estado.
Mais do que um número, a dimensão do mercado revela uma disputa crescente pela renda do consumidor sergipano. Para o presidente da Fecomércio, Marcos Andrade, o avanço das apostas precisa ser analisado também sob a perspectiva da economia real.
“O comércio depende da renda das famílias e da capacidade de consumo. Quando uma parcela cada vez maior dessa renda é direcionada para as apostas, precisamos compreender quais são os efeitos sobre as empresas, os empregos e a circulação de recursos na economia. Esse é um debate econômico que precisa ser enfrentado com responsabilidade”, afirma.
A preocupação do presidente da Fecomércio encontra respaldo nos estudos da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), que tem alertado para os impactos das bets sobre o varejo brasileiro. Segundo levantamento da entidade, as apostas online representaram uma redução estimada de R$ 143,8 bilhões no faturamento potencial do varejo brasileiro no período analisado. Para o economista Marcio Rocha, o dado precisa ser observado a partir do comportamento da renda das famílias.
“O que está acontecendo é uma drenagem de renda. O dinheiro que deveria alimentar o consumo, especialmente em uma economia como a nossa que é pequena e pobre em relação ao Brasil, passa a ser direcionado para uma atividade cuja lógica é a transferência de recursos para as plataformas de apostas. Para o varejo, isso é extremamente preocupante. A cada real que deixa de circular no comércio, há um efeito sobre toda uma cadeia econômica”, explica.
O problema se torna ainda mais grave quando as apostas passam a ocupar espaço no orçamento destinado às despesas e ao consumo das famílias. A aposta cria uma expectativa de ganho, mas, na prática, pode transformar renda disponível em perda. E essa perda, uma vez consolidada, não retorna para o consumo da família. É uma drenagem de recursos que pode comprometer de forma permanente a capacidade financeira do consumidor e retirar dinheiro da economia real.
O fenômeno também chama atenção pelo nível de engajamento no Estado. Levantamento da Paag apontou aproximadamente 17 mil apostas por 100 mil habitantes em Sergipe no terceiro trimestre de 2025, colocando o Estado entre aqueles com maior frequência de apostas per capita. O cenário preocupa especialmente porque o comércio tem papel central na economia sergipana, com forte participação na geração de empregos, renda e circulação de recursos. A questão, portanto, não é apenas quanto as plataformas movimentam, mas quanto da renda que poderia fortalecer a economia local está sendo direcionada para as bets, já que são 391 mil apostas por trimestre, ou 1,56 milhão de apostas ao ano, na proporcionalidade. É essa mudança de destino do dinheiro que está no centro do alerta da Fecomércio.
O consumo possui efeito multiplicador. Uma compra realizada no comércio movimenta o estabelecimento, gera receita, ajuda a pagar salários, remunera fornecedores e mantém uma extensa cadeia de atividades econômicas. Quando a renda das famílias é absorvida pelas plataformas, especialmente quando há perda, aquele recurso deixa de cumprir sua função dentro do orçamento doméstico e reduz a capacidade de consumo futuro. Para Marcio Rocha, esse é um dos aspectos mais preocupantes do avanço das bets.
“Precisamos olhar para as apostas não apenas como uma atividade de entretenimento, mas como uma atividade que está concorrendo diretamente com o consumo das famílias. O dinheiro é finito. Quando ele vai para a aposta, não vai para outra finalidade. E quando há perda, temos uma destruição de renda que não produz o mesmo ciclo econômico de uma compra no comércio e quando vemos que 17 a cada 100 sergipanos são apostadores, isso preocupa ainda mais.”, afirma.
A Fecomércio defende que o debate seja ampliado e que os impactos econômicos das apostas sejam acompanhados com maior profundidade, especialmente em relação ao consumo, ao endividamento e à capacidade financeira das famílias. O presidente Marcos Andrade reforça que a discussão precisa ser conduzida com responsabilidade e baseada em dados.
“Não se trata de fazer um julgamento sobre quem aposta. Trata-se de compreender os efeitos econômicos de um mercado que cresce rapidamente e disputa uma parcela cada vez maior da renda das famílias, na esperança de ganhar dinheiro, são os mais pobres que sofrem com as perdas e deixam de comprar até mesmo alimentos para suas famílias. São 3,8 bilhões de reais que deveriam estar sustentando famílias, pessoas, empregos. O comércio precisa estar atento porque essa mudança de comportamento tem consequências para toda a economia”, afirma.
Os números nacionais já dão a dimensão do fenômeno. Em Sergipe, a estimativa de bilhões de reais associados às apostas mostra que o assunto deixou de ser periférico. As bets entraram na disputa pela renda do consumidor. E o comércio sergipano começa a sentir a necessidade de discutir o que essa mudança significa para o consumo, para as empresas e para a própria economia do Estado.
O Sistema S do Comércio é composto pela Fecomércio, Sesc, Senac, Instituto Fecomércio e 13 Sindicatos Patronais em Sergipe. Presidida por Marcos Andrade, a entidade é filiada à Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), que está sob o comando de José Roberto Tadros.
Modificado em 18/08/2026 17:26