A iniciativa consolidou uma mudança na forma de acolher as pessoas em sofrimento emocional na rede municipal. Aracaju se tornou a primeira capital do Nordeste a integrar de maneira estruturada o cuidado psicossocial às 45 Unidades de Saúde da Família (USFs), aproximando o atendimento da população e fortalecendo a atenção básica como porta de entrada para os cuidados em saúde mental.
Por meio do Proaps, as equipes das USFs passaram a contar com um fluxo organizado de escuta qualificada, acolhimento e acompanhamento. A proposta permite que pessoas com sofrimento emocional leve ou moderado recebam suporte diretamente na comunidade, sem a necessidade de um encaminhamento precoce para um serviço especializado. Quando identificada uma situação que exige atenção especializada, o cuidado é compartilhado com outros pontos da rede.
Para o assessor técnico da Saúde Mental na Atenção Primária da SMS, Lucas Rosa, o primeiro passo é justamente garantir que a pessoa seja acolhida na unidade mais próxima de sua comunidade. “A UBS é a porta de entrada. A primeira coisa que a UBS deve fazer é acolher essas pessoas, identificar e estratificar o risco. Existem os casos leves e moderados, que a UBS pode acompanhar, mas, nos casos graves, a unidade monitora, mas o atendimento passa para a rede especializada. Pode ser o consultório de psicologia, de psiquiatria ou o CAPS”, explica.
Segundo Lucas, o acolhimento também representa uma mudança na maneira de compreender o sofrimento emocional. “A primeira coisa é acolher, reconhecer o sofrimento, não minimizar, não estigmatizar e não tratar com preconceito ou discriminação, porque qualquer pessoa pode ter uma depressão, um problema de pânico ou outros problemas mentais”, frisou.
A estratégia já apresenta resultados expressivos. Em 2025, o Proaps viabilizou mais de 32 mil atendimentos e aproximadamente 18 mil encaminhamentos na rede municipal, números que demonstram a ampliação da oferta de cuidado em saúde mental na atenção primária e a capacidade de identificar diferentes níveis de necessidade antes da chegada aos serviços especializados.
Lucas ressalta que o resultado também representa o fortalecimento de uma responsabilidade que já faz parte dos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS). “Significa alcançar uma meta, porque a atenção primária deve cuidar da saúde mental. A saúde mental não é específica da rede psicossocial, que as pessoas conhecem mais como os CAPS. Então, atingir uma meta que é muito importante, necessária e que é um dever também traz uma sensação de realização”, pontuou.
Na prática, o cuidado começa no território
Na USF José Calumby Filho, no bairro Jardim Centenário, o Proaps faz parte da rotina de atendimento e demonstra, na prática, como o cuidado em saúde mental pode começar ainda no território. O primeiro contato pode acontecer por meio do agente comunitário de saúde, que identifica situações de sofrimento entre os moradores acompanhados pela equipe.
A agente comunitária de saúde Salete Curcino Freire Mendonça explica que esse trabalho começa com a identificação e a escuta. “Nós identificamos o usuário em sofrimento na área, fazemos o primeiro acolhimento e a escuta qualificada. A partir daí, distribuímos a demanda para a unidade de saúde. Nos casos leves, nós mesmos acompanhamos. Se for caso moderado ou grave, encaminhamos para os profissionais, como psicólogo e psiquiatra, ou diretamente para os CAPS”, disse.
Salete explica que a avaliação ajuda a definir qual tipo de cuidado cada pessoa precisa. “Nós fazemos alguns testes e avaliações e, a partir deles, qualificamos a demanda do paciente. Identificamos se ele necessita apenas de acolhimento, conversa e escuta ou se precisa de um atendimento mais especializado. A gente consegue diminuir muito a demanda para a unidade de saúde, porque às vezes são casos leves que não necessitam necessariamente de psicólogo, psiquiatra ou CAPS”.
Depois desse primeiro contato, o acolhimento pode ser realizado por outros profissionais da equipe, de acordo com a necessidade identificada. A técnica de enfermagem Isabel Cristina dos Santos conta que, muitas vezes, a pessoa chega à unidade procurando um atendimento de rotina, mas o que realmente precisa é de alguém disposto a ouvir.
“Esse paciente chega à unidade atrás de apoio e suporte. Muitas vezes vem aferir a pressão ou verificar a glicemia, mas, na verdade, quer conversar, quer desabafar. Vem falar de depressão e ansiedade. Quando realizo o acolhimento, logo detectamos o semblante daquela pessoa que está em sofrimento”, relata Isabel. A partir da escuta, a equipe avalia a situação e define os próximos passos.
Atendimentos mais comuns
A atuação das equipes das USFs permite ainda identificar diferentes situações de sofrimento que chegam diariamente às unidades. Entre os casos mais frequentes, estão os transtornos de humor, como episódios depressivos e transtorno bipolar, além de quadros relacionados à ansiedade, ao estresse, ao pânico e às fobias.
Também chegam às unidades demandas relacionadas a transtornos que têm início na infância e na adolescência, como o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Nesses casos, o cuidado pode envolver não apenas a pessoa atendida, mas também familiares e cuidadores.
“São famílias que tendem a sofrer, porque é uma questão muito desgastante, principalmente quando a criança é nível 3 de suporte, não verbal e com vários comprometimentos. Isso acaba acarretando vários problemas emocionais para os responsáveis e para os cuidadores. A UBS também acaba acolhendo essas famílias, que geralmente são conhecidas como famílias atípicas”, afirma Lucas Rosa.
A enfermeira Maria Celma Lima Ferreira conta que questões familiares e financeiras também aparecem com frequência nos atendimentos. “Essa questão da convivência em casa e a questão financeira aparecem muito, porque tem famílias que moram em uma residência com várias outras pessoas e algumas acabam ficando mais sobrecarregadas, principalmente aquelas da terceira idade. E a conversa, a orientação, ajuda muito essas pessoas”, frisou.
Para ela, acompanhar essa transformação mostra que, muitas vezes, uma conversa pode ser o primeiro passo para ajudar alguém a encontrar novos caminhos. “Quando a gente consegue ouvir, conversar e ajudar uma pessoa a enxergar um caminho para resolver aquilo que está causando sofrimento, já é muito importante. E quando a gente percebe que ela volta para a unidade mais tranquila, sorrindo e dizendo que conseguiu mudar alguma coisa na vida, isso traz uma felicidade muito grande. É muito positivo ver que o nosso trabalho pode ajudar de alguma forma”, concluiu Maria Celma.